Deixa como está

Terminei meu livro. Brasília está cinza. Mais um cigarro…

Um gole de whisky com muito gelo, por favor. Marcos me disse que sou tola por continuar trancafiada aqui, neste apartamento vazio. Já eu retruquei dizendo que não ganho muita coisa lá fora. Não ganho mesmo. Mas lá tem o vento, enquanto aqui só tem ar. Só ar parado, contaminado, oxigenado.

Minha caneta só tem feito rabiscos ultimamente. Não tem nada mais pra fazer mesmo. Minhas teclas só digitam bobagens, e eu preciso terminar a crônica da semana. Ou então o Sr. Antônio briga comigo. O Sr. Antônio é meu chefe, e ele já avisou que não quer mais saber de atrasos. “Prazos são feitos pra você cumprir”, ele diz. Como se eu não tentasse.

As horas passam e Capitu traiu Bentinho. Assim como Matilde traiu Eulálio. Está frio, mas muito seco lá fora. Mas talvez amanhã o dia esteja menos abafado. O eixo monumental perde a graça nesse horário e ganha um engarrafamento infernal. Aqui não é muito diferente. Umidificador em Brasília é coisa de gente com dinheiro. Dinheiro me falta. Palavras também. Acho melhor desistir de ser cronista duma vez.

Coloco minhas botas e saio do apartamento. São dez lances de escadas pra subir e descer todo dia – o elevador está estragado há quinze anos e ninguém manda arrumar. O vento gelado bate na cara da gente que nem quando a verdade bate na cara da mentira. Assusta, a gente abre bem os olhos e acorda. Acorda pro mundo. Uma vez Marcos me disse que eu passei a vida inteira dormindo. Mas isso não importa muito.

Terminei meu livro. Brasília continua cinza. Menos um cigarro e mais vento, por favor. (…)

Texto perdido sobre a insônia.

Ter insônia é habitar o inferno e não ter a opção de abraçar o capeta, porque no momento, ele também está dormindo.

Sobre a insônia:

São 3 da manhã e os olhos sentem o cansaço de três mil anos. São três mil anos de guerra. De uma luta que não acaba quando os olhos se fecham, apenas recomeça.

Não se sabe ainda se o órgão causador da insônia é o cérebro, que faz brotar pensamentos ou o coração que faz birra dizendo que embora o relógio e o corpo acuse hora de descansar, ele já não sabe como fazer isso.

No auge do desespero de minha insônia, constatando que não vou mesmo conseguir dormir, penso em qualquer coisa que a valha. Como os místicos dizem com a certeza mais otimista “nada é por acaso”. Penso então em escrever algumas linhas sobre o momento, para que ele não passe simplesmente, deixando o mais imprudente dos arrependimentos – o arrependimento das coisas que não fizemos, por teimosia do corpo. Dormir.

Eis que aí encontro algo para chamar de motivo a mais uma dessas noites inquietas: é que na minha própria insônia, que é o meu espanto, encontro mais espanto. E encontro espanto dentro mesmo do meu ato de ter espanto.

Eu ambiciono nesta noite que minha insônia tenha um porquê, algo que a torne valiosa, uma surpresa, um bom texto. Mas não penso que tudo isso será igualmente inútil à vida pós-insônia.

É que vejo agora, que esta noite só tive insônia porque antes mesmo de tentar dormir, desejei muito e de forma inconsciente que ao despertar, o dia trouxesse algo que me valesse à vida. Ou pelo menos um bom assunto para escrever.

E nessa ansiedade, falhei a ponto de não saber existir só nela, mas precisei quebra-la em partículas iguais, da mesma expectativa e da mesma decepção.

Termino algumas vidas mais sábia esses rabiscos a que chamo de texto, somente pela minha humildade de compactar minha existência e tornar menor meu próprio espanto. Pois este texto, mesmo tendo sido de muito pouco valor e importância, nasceu e concretizou-se até o fim. A vida amanhã será da mesma forma. E só acontecerá.

Para o lado de dentro

Uma vida toda para dentro e nunca para fora. É essa a impressão que o tempo trás, você vai vivendo e se lembrando de alguma coisa que leu em livros, quando na verdade deveria ser o contrário: ler livros e se lembrar do que viveu.

A minha coleção de histórias, muitas vezes cômicas ou delirantes, estão vagas e superficiais quando já decorei o roteiro e o modo de narrá-las. Eu apenas vou lembrando delas com afago grande nesses dias de inverno, lembrando nunca em palavras, na memória é mais bonito. E vou ouvindo mil e trezentas músicas por dia, ou apenas uma unica música que coloco para repetir o mês inteiro como forma de acalmar meu tormento. É tudo excessivo ou escasso por onde eu vivo. E vivo comprando canetas com a tentação de escrever tudo quanto histórias me vier a mente, já escrevi sobre morte e vida e a principal da história geralmente é severina, nunca eu. Quando vou falar de mim, desvio o tom para uma terceira pessoa. Aprendi ir existindo assim, entre miudezas.

Lendo, escrevendo, ouvindo música o tempo todo, uma sequência banal. Tomei pra mim e inventei uma liberdade. Fiz paz com as próprias mãos. Engoli o choro. Engoli a mágoa. Engoli a vida. Vivo agora sobretudo para o lado de dentro… E do lado de fora, faço o possível.

Carta

carta

Eu não penso duas vezes, to sempre agindo, de pé na estrada. E você, aí, me esperando feito quem adia contar a verdade e repete uma mentira, acrescentando mais mentira cada vez que ela é repetida. Você é do tipo que vai ao banheiro pra chorar escondido, e sai com um sorriso de plástico preso a pele. Você reclama de tudo, mas nunca faz por mudar. E você implora aos prantos, que eu interfira na sua vida. Mas eu sou diferente de você. E não abro mão de dizê-lo: eu sou a besta do meu próprio apocalipse. Sou o deus do olimpo que habita em nossa alucinação, eu não faço charme, você sabe… Quando eu quero, eu vou em cima e consigo. Eu tenho o que te falta, eu sei muito bem o que falar, tudo quanto penso, sai organizado em palavras de alto e bom tom. E ainda sei o que fazer com as mãos. Mas você vive com essas mãos frouxas, balançando-as numa tentativa deplorável de acalmar sua ansiedade. E repete uma mesma palavra várias vezes, mas no fim, nunca sai com sinceridade o que você – queria dizer. Seu verbo é sempre sugestivo, sempre no passado. O meu verbo é ativo, eu me faço verbo a cada hora. E eu moro dentro de você. Mas somos tão opostos, você se esconde de mim como uma criança com medo do armário aberto. Você é afogado na mesma maré social todos os dias, e eu sou o salva-vidas, que espera ansiosamente pelo dia em que você vai gritar socorro e deixar que eu te carregue nos braços. Mas você se afoga todos os dias, e morre sempre sem que eu chegue a você.

Você deve ta se perguntando agora, extasiado, se eu sou real. E eu respondo: que só existo quando você pensa em mim.

 

 

Assinado, CORAGEM.

Estado de espírito

Tem coisa que não permite ensaio, a gente tem que ir. E tem coisa que quanto mais a gente ensaia, menos tá preparado pra fazer. Procurei essa dualidade de pensamento, uma ideia fica melhor repartida, com dois caminhos, você escolhe o meio termo entre eles, caminho dos covardes.

Passei a manhã acordada, tive apetite mas não quis comer, tive vontade de escrever, mas tomei um comprimido. Tive muita coisa e nada tapou o buraco de ter uma interrogação no estômago.

Concentrei-me no nirvana. Paz de espírito e uma filosofia ou outra, que sempre compro quando tô a pé, com os bêbados ou quando sou aluna, de mestres. Eu fui dormir guerra, eu acordei em guerra. Interna. Lenta. Barulhenta. No meio da manhã eis que surge o meio termo do caminho, muitas xícaras de café e um paliativo: silêncio em capsula. Engoli sem água mesmo, quando uma guerra mostra que só há perdedores, o soldado tem pressa em rendição.

Silêncio. Trincheiras removidas, eu falo muito em metáfora. Senhores do juri, eu tomei um paliativo pra silenciar a guerra (interna), mas em verdade vos digo: isso aqui, ainda não é paz.

Uma noite de um dia difícil

Tem dias que não nascem pra ser fáceis. Você vai ter que aceitar, rolou a noite toda na cama, pra lá e pra cá, e quando finalmente achou uma posição perfeita e aconchegante o despertador toca. Você ignora o ódio de tê-lo programado pra isso e levanta. A claridade que entra pelas frestas incomoda. O café não passado incomoda. A vida acontecendo lá fora incomoda.

Mas é mais do que isso. Liga-se o automático pra dar passo as atividades rotineiras, mesmo quando elas já se tornaram um fardo. Não se trata, em dias difíceis, esperar pela hora do almoço. Mas, esperar pela hora do milagre.

Num dia complicado, eu precisaria de uma epifania. No dia difícil, eu fujo de delongas reflexivas, porque elas chegam armadas. E ferem. Sem que ninguém veja.
Ou então, escreveria sob uma sombra algo de expressivo. Naquele difícil, nada foge de um sol ardente, que agora parece morar dentro de mim. Não tem mais o que se escrever, nem ler, nem comer, nem pensar.

Nenhum verbo que faça sentir prazer. Porque o dia que for realmente difícil vai te acusar egoísta por querer, falho, se exibir a felicidade.

O dia difícil te permite ao menos dormir, é verdade.
Mas sempre acorda pra te mostrar quanta culpa tem debaixo do seu travesseiro.

Hoje dormi muito, mas não descansei. Tenho os olhos vermelhos, e pela frente uma noite inteira de um dia difícil.

Café do dia 12 de Maio.

Não cabe aqui falar de alienação
ou do preço do pão

Não cabe em linha alguma
interpretar uma constituição
ou o significado de um título
que deram ao povo,
os chamando de eleitor

Não combina, não tem que se falar
Aqui tudo é binário
democracia ou golpe?
A vaga está fechada para críticas
A um caminho de acordos sujos
A vaga está fechada como quem diz:
aqui se colhe o que se planta.
Ponto final.

Não existe disputa em entrelinha
Só existe poder

E quem disputa não existiu na rua
Ganhou lá dentro.
Sem voto?
Teve voto sim!

Guerra civil. Ou quase.
O povo assistiu bestializado.
Mas teve fogos de artifícios.
Repito: não cabe aqui falar de alienação.

A disputa se deu.
O voto foi engravatado
Eu dormia enquanto eles, “acordavam”.
Eu dormia sem saber
se vestir gravata bastava
pra fazer valer o voto.

Não cabe mais aqui falar
do meu voto, ou até de 54 milhões
Cabe agora pegar o café
e engolir o gosto amargo
de um ilegítimo plano de governo
que eu não escolhi.

Existencialismo – um poema teoria.

Eu procurei o verbo que melhor
fizesse jus ao que eu queria me tornar

Falha, eu só sabia ser e mais nada.

Procurei formar versos
pra tentar emanar beleza de mim
mesmo quado me faltasse na alma

Procurei em vários dicionários
significados de palavras
e aprendi alguns
mas nenhum que significasse o vazio

nenhum que parasse os dedos trêmulos
a ansiedade noturna
o medo de pedir “fica”

Mas silenciosamente te pedi.
E você mesmo sem ouvir, ficou
agregou significado em mim
e até viu beleza onde eu só via ansiedade

Não existe palavra alguma
O amor é a única coisa que existe.

Vou te escrever um poema

Vou te escrever com urgência
Já que embora você diga que precisa
da minha poesia, ela também necessita de você.

Vou te escrever um poema
E eu também não posso te escrever uma carta
vacilaria ao endereçar.
Ou ainda escrever um verso de música
Você riria e eu não teria ritmo.

Vou te escrever um poema como quem adia
E agora só sai se for de uma vez

Mas vai ser um poema arrastado
Que lembra os anos que agora
Se faz entre nós nostalgia

Mesmo assim vou te escrever com alegria
Que é uma maneira de constar
O que você não deixaria faltar

Mas vou deixar algum ar da melancolia
Que é pra você saber que eu posso até disfarçar,
mas nunca ignorar a sua dor

Vou te falar de saudade, de amizade,
Tudo com admiração e ideologia

Vou te esclarecer que dessa vez
O medo de ser excesso perde
Pra totalidade de me sentir segura
Pra ser mesmo qualquer coisa.
Sem podar dos lados.

Vou te confundir, como você já deve ter notado
Mas o poema vai te conhecer tão a fundo
Que as entrelinhas, dessa vez, vão ler você.

Vou te escrever. Calma.
To adiando porque antes de ser já era pra você ler.

E daqui muitos anos eu vou escrever
E mesmo que de você eu não saiba mais nada
Tudo que eu escrever ainda vai saber um pouco de você

Dívida.

Prendo sempre os cabelos bem no alto da cabeça, que é pra sentir o vento frio da cidade. Devia pensar “que ironia, vento frio numa cidade do centro-oeste”. Mas qualquer um que já tenha pisado por aqui sabe do que estou falando. O deserto de concreto. A capital esbanja por entre suas quadras cheias de fórmulas numéricas esse ar de ser ciência exata.

Quem aqui ainda vê sua juventude, seus ritos brasilienses sendo cumpridos e formando sua identidade, há de espantar-se com o exagero de quem vem de fora como migrante: “Certamente ficou pouco”, “só foi no congresso”.

Quem vem de longe se der sorte de pegar o grande circular certo, no momento certo, com as pessoas certas também vai descobrir os ritos da noite, dos eixos, das vidas. Próprios daqui. Vai até gostar, mas como quem prova um gosto nunca experimentado antes… E muitas vezes a fruta que vai matar a fome é a velha conhecida. “Um ar de gente, que dá bom dia, que tem lar, que anda a pé” Disseram uns amigos que é isso que falta.

Eu não me encaixo em nenhum dos perfis acima. Não faço ideia, ainda, o que falta nem o que sobra por aqui. Talvez o choque seja esse o tempo todo: eu não me encaixo em Brasília? Por hora, sim. Por hora, não.

jjjjjjj

O horror que a cidade me causa é claustrofóbico, uma vez que qualquer criança do entorno do quadrado, sente a felicidade como coisa muito plena e muito simples ao entrar em contato com a simples grama do parque da cidade. Se a sensação de não pertencimento me tranca por dentro, o desejo de pertencer escancara todas as janelas e rotas de fuga.

Um dia deixo Brasília… irei partir em direção oposta a que a cidade me obriga. Seja norte ou sul. Mas antes fico em Brasília, sem passagem de volta, vou planejar ter filhos aqui e que eles vejam o que vi quando, assim como eles vão, nunca pensava em ter filhos. Antes, eu consigo. Brasília, você vai ver que eu consigo. Não esqueci que temos uma dívida e que eu vim para cumprir. Eu tinha só 10 anos olhando do eixo monumental pro sol estridente de 5 horas da tarde, eu firmei nossa dívida. Vou aqui sobreviver.