Dívida.

Prendo sempre os cabelos bem no alto da cabeça, que é pra sentir o vento frio da cidade. Devia pensar “que ironia, vento frio numa cidade do centro-oeste”. Mas qualquer um que já tenha pisado por aqui sabe do que estou falando. O deserto de concreto. A capital esbanja por entre suas quadras cheias de fórmulas numéricas esse ar de ser ciência exata.

Quem aqui ainda vê sua juventude, seus ritos brasilienses sendo cumpridos e formando sua identidade, há de espantar-se com o exagero de quem vem de fora como migrante: “Certamente ficou pouco”, “só foi no congresso”.

Quem vem de longe se der sorte de pegar o grande circular certo, no momento certo, com as pessoas certas também vai descobrir os ritos da noite, dos eixos, das vidas. Próprios daqui. Vai até gostar, mas como quem prova um gosto nunca experimentado antes… E muitas vezes a fruta que vai matar a fome é a velha conhecida. “Um ar de gente, que dá bom dia, que tem lar, que anda a pé” Disseram uns amigos que é isso que falta.

Eu não me encaixo em nenhum dos perfis acima. Não faço ideia, ainda, o que falta nem o que sobra por aqui. Talvez o choque seja esse o tempo todo: eu não me encaixo em Brasília? Por hora, sim. Por hora, não.

jjjjjjj

O horror que a cidade me causa é claustrofóbico, uma vez que qualquer criança do entorno do quadrado, sente a felicidade como coisa muito plena e muito simples ao entrar em contato com a simples grama do parque da cidade. Se a sensação de não pertencimento me tranca por dentro, o desejo de pertencer escancara todas as janelas e rotas de fuga.

Um dia deixo Brasília… irei partir em direção oposta a que a cidade me obriga. Seja norte ou sul. Mas antes fico em Brasília, sem passagem de volta, vou planejar ter filhos aqui e que eles vejam o que vi quando, assim como eles vão, nunca pensava em ter filhos. Antes, eu consigo. Brasília, você vai ver que eu consigo. Não esqueci que temos uma dívida e que eu vim para cumprir. Eu tinha só 10 anos olhando do eixo monumental pro sol estridente de 5 horas da tarde, eu firmei nossa dívida. Vou aqui sobreviver.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s