Vontades

(A)Vontade

de papel e caneta

De qualquer linha feita

Surge, assim, pra te provar

Que antes houvesse só linha vazia

do que muitas linhas cheias

– de coisa nenhuma

– de vontade de preencher o vazio

que vai te desapontar

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A (DES)vontade de

Falar pra qualquer um ouvir

Qualquer palavra

É que faz nascer, assim,

De modo pausado e interrompido

Toda a vontade que arde

De falar tudo escrito

Pra todo mundo ouvir,

Só que lendo.

Joelhos vermelhos

Pensei em escrever a crônica de uma menina doce com olhar amargo

Queria decifrar o gosto da sinestesia e vibração que ela me causara

Ela me disse que acordava todos os dias com sede

Bebia água, sucos de todas as frutas, bebeu cachaça barata e vodka cara.

Expectorando o sabor do vômito, ali, agarrada ao pé do vaso, com os joelhos sangrando,

Esteve sedenta como nunca, como um balde furado onde a água molha- mas nunca para de cessar.

A sede a invadiu, e ela queria beber gota por gota.

Gotas de joelho que vertiam o vermelho de vingança.

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Escrevi tudo em meu caderno de escritor fodido e mal pago; escrevi em vermelho. Nós dois sabíamos que ela nunca teria sua chance de vingança, mas gostávamos dessa literatura.

Pela metade.

Viver metade de um inteiro
não preenche metade do vazio
sem medida em que habito

Em mim, o vazio não é temporada; É moradia.
Um lar que mais parece uma piada
E que dói quando quero me mudar

O meu vazio nunca foi riso nem lágrima
nem o ranger de dentes angustiados
não é carinho e não chega a ser
um soco no estômago

Não há uma parte do corpo
que ele não possa ferir

Porque ele é o inteiro

E eu não chego a ser metade

Roteiro.

Não pensa muito. Vai! É preciso um tanto de coragem.
O beco escuro, você entra de uma vez, sem pensar.

Se no caminho tiver cacos de vidro pelo chão,
você sangra, mas se regenera.
Dá a cara tapa. Com palavrão ou então
com o provérbio que sua mãe te ensinou

Pisa em ovos
vai quebrar, não tenho jeito.
Coração apanha e nasce sabendo bater.
Pisa em flores
jardim bonito é mais cheiro do que forma

pisa e salta: executa o seu balé
depois de se humilhar, o palco pra você brilhar.

E quando tiver lá em cima,
não pisa em quem tá embaixo
não esquece quem te deu raiz
depois que alçar o seu voo.

E no fim, voa – e aprende que a raiz do amor é a liberdade
não prende, mas leve. Pousa.
não depende de galho quebrado nem inteiro
mas é afago na brisa e nunca acaba porque segue a direção do vento.

Depois do fim, você ainda ama.

Só aconteço quando poema.

Hoje me dispus a escrever. Precisava de um poema que me fizesse voltar a viver logo quando lesse o seu final. Desses que é preciso me ganhar mais como quem lê do que como quem escreve.

Meu auto desprezo têm aumentado a cada manhã, reconheço. E tenho vivido menos. A cada manhã quando quebro mais vidros pela casa, rasgo e queimo mais poesias, ligo o ventilador e deixo a tudo na desordem. Desprezo os meus antigos TOCs, alimento o gato, mas desisto do meu próprio paladar. Que ninguém se preocupe, já desisti do gozo há tempos. Não me drogo, não tomo banho, não tenho mais espelho. Eu desprezo agora o amor, para enaltecer o lírico, a quem ouso chamar de “eu”:

[Meu cais é o caos. Tenho em mim desesperanças e utopias
eu amo o que está longe e o que ainda não existiu.
Essa manhã acordei mais amarga que sozinha
E se não amo, é por questão de paladar e não de companhia.
a voz é o instrumento que eu não posso controlar
o tom é a linha que meu samba não pode andar

que ninguém me dê piedade nem me diga o caminho
não sei pra onde vou mas sei que não vou por seu destino]

 

Hoje sou o meu melhor “um dia”

Este poema chegará na minha sala como tempestade;
abrindo minhas cortinas da alma.

Desejo de uma só companhia.

Vesti-me com a minha mais bela roupa

Coloquei nas caixas de som uma música

Que não fosse triste demais
pra que pudéssemos dançar

Que não fosse ainda alegre demais
pra que pudesse convencê-la a ficar.

Abri cinco garrafas diferentes, a bebida que você mais gostar
Será a minha essa noite e todas as outras.

E te esperei.

Era um cenário próprio pra minha melhor exibição

E a plateia a quem tentava seduzir chamava-se solidão.

8 ou 800

O ponto mais alto da minha noite foi quando ouvi a frase
“Você sempre nos extremos, queria ficar em casa dormindo e agora tá aqui bêbada”. Todo mundo riu, era meu aniversário. Não queria ter saído, foi uma sexta-feira complicada. Mas lá estava eu, no bar, com muitas garrafas empilhadas sobre a mesa e um maço quase inteiro tragado em ansiedade. Das caixas de som, só saía Led Zeppelin.

Eu via seu rosto em todo lugar e não comemorava o meu dia de envelhecer, mas lamentava o envelhecimento da sua ausência. E tudo ali te favorecia: sua banda preferida tocando, seus hábitos boêmios me rodeava, aquela fumaça toda de cigarro só lembrava você. Peguei o celular num ímpeto. Escrevi
“Lembrando de você, tô num lugar que só toca Led….” Desisti. Eu sabia que você já me achava louca, mas não precisava surtar assim. Aparecer depois de quase um ano, desse jeito… Voltei-me ao cigarro.

Os bêbados se lembram da noite como um show, o ápice do espetáculo, o corpo em êxtase embalado pela dança e o momento de descer do palco, o vazio existencial. Tudo por entre flashes.

A próxima cena já se passava no banheiro, a água escorrendo, eu me afogando. Na mesma fonte de todos os dias, a mágoa. Sai numa toalha, as mãos trêmulas, a ânsia de falar com você era maior que tudo. Peguei o celular. Escrevi muitas frases cambaleantes; só me lembro de uma — “Você é a projeção mais bonita que eu já vi, mesmo depois de visitar o planetário da cidade”. Eu sabia ser romântica como nunca quando era pra você, mas você nunca saberia, porque mensagem volta atrás, mais do que as palavras calam.

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Eu queria ouvir qualquer coisa tua. Eu acho que esqueci sua voz, mas suas palavras estão cravadas.

Escrevi num papel
“Joga minha cara que nunca ficamos juntos de verdade por minha causa, que eu sou uma louca e que você cansou da minha bipolaridade. Eu nunca senti tanta falta de uma dose sarcástica nas palavras. Foi assim que eu me apaixonei, pelo seu discurso fazer poesia com o meu; me ridiculariza, eu só quero amor se sair rasgando, aqui a ferida já ta aberta.”

Adormeci nua e com frio. Já que não teria você pra me maltratar como pedi no meu rascunho bêbado, que nunca seria lido, eu o fiz quase sem consciência. Envelheci mais de uma vida essa noite. E o ponto alto foi o extremismo, uma vez não foi você quem disse?
“você sempre acaba trazendo os extremos dentro de mim

 8 ou 80
 só que no caso era 8 ou 800″
Feliz ausência minha, é o que eu me daria hoje de presente.

Sobre ser flor.

Estive pensando de que matéria é feita a vida, e se eu era a própria substância que dava fôlego ou se era apenas – o fôlego.

Uma vez li um poema de uma flor que era livre. Fiquei por horas a fio, desejando ter nascido em jardim, ainda que fosse erva daninha, mas que ganhasse um tom amarelado diferente do sorriso amarelo que encontrei hoje no espelho. As flores, ainda que não sejam girassóis ou margaridas, são as fontes que amarelam o próprio sol.

Mas o que encontro hoje em meu espelho é apenas trovão. Parece luz, mas sobra um desbotado sem cor alguma. Sem aroma, nem mistério. Eu não vim do ouro, o amarelo de mais valor. E também não vim do delicado amarelo que possui os jardins. Eu vim do lodo. Nasci em meio a sujeira, e nela eu me criei. Aprendi desde cedo que com poesia não se ganha muito, que a beleza é subjetiva quando há tanta pobreza. Meu santo era ateu, por isso foi chamado logo de demônio. Tudo de onde vim é muito barato. Dizem que lhe falta valor. Mas eu entendo que do lado de lá, valor é preço.

Não sei o preço dessa flor. Talvez custe um livro. De filosofia ou espiritualidade. Mas não vale nem uma grama do amarelo do ouro. Valerá um conto sobre Buda.

A flor que desabrocha do lodo, aos trancos, mas mantém-se flor, chama-se Lótus.

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Pai, dê-me de beber desse cálice.

É de se perceber algo pelo tom exagerado que dou as minhas palavras – é que procuro falar sempre como se cada frase que saísse da minha boca fosse um Cristo crucificado: uma heresia, como me acusará em seguida. Um sacrifício. Sobretudo busco fazer com que o que eu diga seja a salvação. É que busco salvar a minha própria vida mais do que a qualquer outra, e assumo: egoísmo. Aqui o Cristo mesmo são as palavras, eu sou um pobre diabo que ama o pecado e odeia os pecadores, um hipócrita bêbado diabo. Minhas palavras são de uma fonte tão mais divina que as mãos que as escreve, que aqui me refiro no masculino, porque se fosse falar que sou um diabo de mulher, já me chamariam logo de puta. E puta, não tem nada a ver com Cristo. Procuro minha salvação apenas, repito, mas se você chega ao final dessa leitura amando todas essas palavras, tenho uma notícia igual para quem chegou ao final as odiando: sinta-se divino ou profano, mas se capaz de sentir, eu o salvei nesse momento. E afirmo com arrogância característica de um diabo que cospe Cristo em palavras: Desse cálice, não quero afastar-me, quero beber.