8 ou 800

O ponto mais alto da minha noite foi quando ouvi a frase
“Você sempre nos extremos, queria ficar em casa dormindo e agora tá aqui bêbada”. Todo mundo riu, era meu aniversário. Não queria ter saído, foi uma sexta-feira complicada. Mas lá estava eu, no bar, com muitas garrafas empilhadas sobre a mesa e um maço quase inteiro tragado em ansiedade. Das caixas de som, só saía Led Zeppelin.

Eu via seu rosto em todo lugar e não comemorava o meu dia de envelhecer, mas lamentava o envelhecimento da sua ausência. E tudo ali te favorecia: sua banda preferida tocando, seus hábitos boêmios me rodeava, aquela fumaça toda de cigarro só lembrava você. Peguei o celular num ímpeto. Escrevi
“Lembrando de você, tô num lugar que só toca Led….” Desisti. Eu sabia que você já me achava louca, mas não precisava surtar assim. Aparecer depois de quase um ano, desse jeito… Voltei-me ao cigarro.

Os bêbados se lembram da noite como um show, o ápice do espetáculo, o corpo em êxtase embalado pela dança e o momento de descer do palco, o vazio existencial. Tudo por entre flashes.

A próxima cena já se passava no banheiro, a água escorrendo, eu me afogando. Na mesma fonte de todos os dias, a mágoa. Sai numa toalha, as mãos trêmulas, a ânsia de falar com você era maior que tudo. Peguei o celular. Escrevi muitas frases cambaleantes; só me lembro de uma — “Você é a projeção mais bonita que eu já vi, mesmo depois de visitar o planetário da cidade”. Eu sabia ser romântica como nunca quando era pra você, mas você nunca saberia, porque mensagem volta atrás, mais do que as palavras calam.

large (2)

Eu queria ouvir qualquer coisa tua. Eu acho que esqueci sua voz, mas suas palavras estão cravadas.

Escrevi num papel
“Joga minha cara que nunca ficamos juntos de verdade por minha causa, que eu sou uma louca e que você cansou da minha bipolaridade. Eu nunca senti tanta falta de uma dose sarcástica nas palavras. Foi assim que eu me apaixonei, pelo seu discurso fazer poesia com o meu; me ridiculariza, eu só quero amor se sair rasgando, aqui a ferida já ta aberta.”

Adormeci nua e com frio. Já que não teria você pra me maltratar como pedi no meu rascunho bêbado, que nunca seria lido, eu o fiz quase sem consciência. Envelheci mais de uma vida essa noite. E o ponto alto foi o extremismo, uma vez não foi você quem disse?
“você sempre acaba trazendo os extremos dentro de mim

 8 ou 80
 só que no caso era 8 ou 800″
Feliz ausência minha, é o que eu me daria hoje de presente.

Sobre ser flor.

Estive pensando de que matéria é feita a vida, e se eu era a própria substância que dava fôlego ou se era apenas – o fôlego.

Uma vez li um poema de uma flor que era livre. Fiquei por horas a fio, desejando ter nascido em jardim, ainda que fosse erva daninha, mas que ganhasse um tom amarelado diferente do sorriso amarelo que encontrei hoje no espelho. As flores, ainda que não sejam girassóis ou margaridas, são as fontes que amarelam o próprio sol.

Mas o que encontro hoje em meu espelho é apenas trovão. Parece luz, mas sobra um desbotado sem cor alguma. Sem aroma, nem mistério. Eu não vim do ouro, o amarelo de mais valor. E também não vim do delicado amarelo que possui os jardins. Eu vim do lodo. Nasci em meio a sujeira, e nela eu me criei. Aprendi desde cedo que com poesia não se ganha muito, que a beleza é subjetiva quando há tanta pobreza. Meu santo era ateu, por isso foi chamado logo de demônio. Tudo de onde vim é muito barato. Dizem que lhe falta valor. Mas eu entendo que do lado de lá, valor é preço.

Não sei o preço dessa flor. Talvez custe um livro. De filosofia ou espiritualidade. Mas não vale nem uma grama do amarelo do ouro. Valerá um conto sobre Buda.

A flor que desabrocha do lodo, aos trancos, mas mantém-se flor, chama-se Lótus.

large (1)

Pai, dê-me de beber desse cálice.

É de se perceber algo pelo tom exagerado que dou as minhas palavras – é que procuro falar sempre como se cada frase que saísse da minha boca fosse um Cristo crucificado: uma heresia, como me acusará em seguida. Um sacrifício. Sobretudo busco fazer com que o que eu diga seja a salvação. É que busco salvar a minha própria vida mais do que a qualquer outra, e assumo: egoísmo. Aqui o Cristo mesmo são as palavras, eu sou um pobre diabo que ama o pecado e odeia os pecadores, um hipócrita bêbado diabo. Minhas palavras são de uma fonte tão mais divina que as mãos que as escreve, que aqui me refiro no masculino, porque se fosse falar que sou um diabo de mulher, já me chamariam logo de puta. E puta, não tem nada a ver com Cristo. Procuro minha salvação apenas, repito, mas se você chega ao final dessa leitura amando todas essas palavras, tenho uma notícia igual para quem chegou ao final as odiando: sinta-se divino ou profano, mas se capaz de sentir, eu o salvei nesse momento. E afirmo com arrogância característica de um diabo que cospe Cristo em palavras: Desse cálice, não quero afastar-me, quero beber.