Pai, dê-me de beber desse cálice.

É de se perceber algo pelo tom exagerado que dou as minhas palavras – é que procuro falar sempre como se cada frase que saísse da minha boca fosse um Cristo crucificado: uma heresia, como me acusará em seguida. Um sacrifício. Sobretudo busco fazer com que o que eu diga seja a salvação. É que busco salvar a minha própria vida mais do que a qualquer outra, e assumo: egoísmo. Aqui o Cristo mesmo são as palavras, eu sou um pobre diabo que ama o pecado e odeia os pecadores, um hipócrita bêbado diabo. Minhas palavras são de uma fonte tão mais divina que as mãos que as escreve, que aqui me refiro no masculino, porque se fosse falar que sou um diabo de mulher, já me chamariam logo de puta. E puta, não tem nada a ver com Cristo. Procuro minha salvação apenas, repito, mas se você chega ao final dessa leitura amando todas essas palavras, tenho uma notícia igual para quem chegou ao final as odiando: sinta-se divino ou profano, mas se capaz de sentir, eu o salvei nesse momento. E afirmo com arrogância característica de um diabo que cospe Cristo em palavras: Desse cálice, não quero afastar-me, quero beber.