Sobre ser flor.

Estive pensando de que matéria é feita a vida, e se eu era a própria substância que dava fôlego ou se era apenas – o fôlego.

Uma vez li um poema de uma flor que era livre. Fiquei por horas a fio, desejando ter nascido em jardim, ainda que fosse erva daninha, mas que ganhasse um tom amarelado diferente do sorriso amarelo que encontrei hoje no espelho. As flores, ainda que não sejam girassóis ou margaridas, são as fontes que amarelam o próprio sol.

Mas o que encontro hoje em meu espelho é apenas trovão. Parece luz, mas sobra um desbotado sem cor alguma. Sem aroma, nem mistério. Eu não vim do ouro, o amarelo de mais valor. E também não vim do delicado amarelo que possui os jardins. Eu vim do lodo. Nasci em meio a sujeira, e nela eu me criei. Aprendi desde cedo que com poesia não se ganha muito, que a beleza é subjetiva quando há tanta pobreza. Meu santo era ateu, por isso foi chamado logo de demônio. Tudo de onde vim é muito barato. Dizem que lhe falta valor. Mas eu entendo que do lado de lá, valor é preço.

Não sei o preço dessa flor. Talvez custe um livro. De filosofia ou espiritualidade. Mas não vale nem uma grama do amarelo do ouro. Valerá um conto sobre Buda.

A flor que desabrocha do lodo, aos trancos, mas mantém-se flor, chama-se Lótus.

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